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O delicioso tempo das vergonhas!

06/05/2019 - 09h39

Raquel Anderson

Fusca 3ª Geração 1965 a 1970 (Foto: Reprodução)

O fusquinha emitia barulhos assustadores do escapamento, a gente sentia vergonha e susto, pois, justo na hora que via o paquerinha aconteciam essas coisas...e a gente encontrava com o povo mais chique da cidade no mercado quando o pai tava ali, falando alto e errado e, pra completar, a mãe tava com bobes no cabelo e a gente  sentia vergonha.


Na loja mais sortida a mãe escolhia os tecidos para as nossas roupas e a gente achava tudo brega, sentíamos vergonha.


A gente sentia vergonha de quando passava propaganda de absorventes na televisão e o pai, o irmão, o tio, os primos ou o namorado estavam juntos, a gente ficava vermelhinha de vergonha.


A gente enrubescia por tão pouco... Qualquer piadinha boba deixava um monte de gente vermelha.


A gente sentia muita vergonha de conhecer a família do (a) namorado (a), a gente não sabia o que dizer, como sentar, onde colocar a mão, o cabelo, com muita vergonha.


A gente sentia vergonha quando a professora chamava a nossa atenção, quando a diretora ou o diretor apareciam a gente até tremia.


Quando a gente caia de bicicleta a gente morria de vergonha, no ensaio da festa junina a gente tinha vergonha.


Se a gente errava no ensaio da fanfarra, no jogral, a gente sentia vergonha. 


Até da letra feia e da falta de capricho com o caderno a gente sentia vergonha.


Na reunião de pais e mestres, os professores reclamavam das notas e do comportamento da gente, então a gente ouvia sermão da montanha, o pai e a mãe diziam que estavam com vergonha da gente e a gente, por isso, sentir-se a pior criatura do mundo.


A gente sentia vergonha de tudo, do carro velho, das roupas da mãe, da casa, das capinhas de liquidificador, de bojão, dos milhares de paninhos forrados pela casa, até das comidas a gente tinha vergonha, dos persistentes macarrão com galinha aos domingos e melancia de sobremesa, dos bolos "de pobre" que a vó ou a tia faziam para os aniversários.


A gente sentia vergonha dos materiais escolares inferiores aos dos amigos, vergonha de levar lanche, de carregar sombrinha ou guarda-chuva.


A gente só não sentia vergonha de ajudar em casa, de amar demais, de defender quem a gente gostava, de confiar nas pessoas, de cuidar do irmão, de vender doces, de dividir tudo com os amigos.


A gente conquistou muita coisa, a liberdade nos alcançou ou fomos nós quem a alcançamos, a gente não precisa mais sentir vergonha das coisinhas todas que compunham o nosso mundo na casa dos pais, na cidadezinha ou em qualquer lugar....


A vergonha era o melhor que possuíamos e a gente não sabia.


Parafraseando Fernando Pessoa, mas, com outro substantivo: " Quando vim a ter vergonha, já não sabia mais ter vergonha!"


Porque fomos consumidos por padronizações de comportamentos e escancaramos tudo, banalizamos a vida e já não nos preservamos mais...


A vergonha, muitas vezes, blindava a nós e a nossa família, o "medo" da desaprovação do outro era a aprovação do nosso sagrado, nossos sentimentos, nossas intimidades.


A vergonha da adolescência permitiu que respeitássemos muitos espaços,  muitas pessoas.


Nostalgias, saudosismos piegas podem ser lindezas incomensuráveis...


Assim como podem ser adoráveis os dias atuais se a gente souber, orgulhosamente, ainda, nos envergonharmos! rsrs


E que as nossas vergonhas sejam capazes de nos fazermos olhar pelo retrovisor da vida, para "o tempo da delicadeza"!


*Ontem no trânsito eu vi uma moto "peidorrenta" como eram os carros antigos e fiquei pensando nisso tudo, daí, o texto!

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