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Política

“A ditadura continua”, diz à CNN dono do El Nacional, da Venezuela

Miguel Henrique Otero afirma que captura de Maduro não trouxe avanço democrático e nem liberdade de imprensa

Conjuntura Online
03/02/26 às 12h13
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Miguel Henrique Otero, presidente diretor do jornal El Nacional (Foto: Reprodução/CNN Brasil)

Um mês após a captura do ditador Nicolás Maduro em uma operação conduzida pelos Estados Unidos, a Venezuela segue longe de uma transição democrática real.

A avaliação é de Miguel Henrique Otero, presidente-diretor e proprietário do El Nacional, jornal venezuelano fundado em 1943, que foi duramente perseguido pelo regime chavista, teve suas instalações expropriadas e hoje sobrevive apenas no ambiente digital, tentando informar a população e driblar a censura.

“A saída de Maduro foi um fato importante, porque ele é a cabeça da cobra desse regime. Mas o regime continua praticamente intacto”, disse à CNN Brasil.

Para o dono do jornal, passados 30 dias da captura, a prisão não se traduziu em mudanças concretas nos pilares da democracia venezuelana. “Liberdade de expressão, regras do jogo, Estado de Direito: absolutamente nada disso mudou”, afirmou.

O jornalista define o sistema que governa a Venezuela há anos como uma “corporação criminosa que sequestrou um país”. Segundo ele, embora tenha havido comemoração inicial pela retirada de Maduro, o sentimento predominante hoje é de expectativa e frustração, já que o processo de transição política sequer começou.

Otero também relativiza a libertação de presos políticos anunciada após a captura de Maduro. De acordo com ele, menos de 20% dos detidos foram soltos, muitos em liberdade condicional, com restrições severas de deslocamento e sob constante ameaça de nova prisão. “É uma liberdade relativa".

Na avaliação do presidente do El Nacional, as forças repressivas seguem operando normalmente, incluindo órgãos de inteligência como a DGCIM e o Sebin, apontados por organizações internacionais como instrumentos centrais da repressão política no país.

Enquanto os Estados Unidos pressionam por uma transição tutelada e o governo interino tenta se consolidar, Otero resume à CNN Brasil o momento vivido pela Venezuela um mês após a queda de Maduro: o ex-presidente saiu de cena, mas o sistema que ele liderava continua de pé.

Liberdade de imprensa prejudicada

A crise política na Venezuela também se reflete em um cenário de asfixia quase total da liberdade de imprensa. “O jornal foi perseguido, teve suas instalações expropriadas e confiscadas. Mesmo depois de migrarmos para a internet, não conseguimos chegar aos venezuelanos porque somos bloqueados”, contou o dono do El Nacional.

De acordo com Otero, o bloqueio ocorre por determinação direta do órgão regulador estatal, que ordena às operadoras de telecomunicações que impeçam o acesso a sites considerados independentes. A censura, segundo ele, não se limita a veículos nacionais. “Páginas internacionais também são bloqueadas. Infobae, CNN — tudo pode ser censurado.”

O jornalista explica que rádios e canais de televisão operam sob forte controle estatal e que os poucos veículos que tentaram sobreviver no ambiente digital enfrentam bloqueios recorrentes, tornando a informação inacessível para grande parte da população.

Mesmo um mês após a captura de Nicolás Maduro, Otero afirma que não houve qualquer flexibilização na censura. As estruturas responsáveis pela repressão à imprensa continuam intactas, e jornalistas seguem atuando sob risco constante.

Diante desse cenário, parte da população recorre a VPNs e meios alternativos para acessar informações, mas o alcance ainda é limitado. Para Otero, a situação evidencia que a crise venezuelana vai além da troca de nomes no poder.

“A retirada de Maduro foi simbólica. Mas, enquanto o sistema de repressão continuar funcionando, a Venezuela seguirá sem imprensa livre — e sem democracia”, conclui. (Com CNN - SP)

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