As vaias ao deputado federal Pedro Paulo (PSD-RJ), candidato ao Senado, colocaram em evidência uma divisão entre aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na reta final das eleições.
Diante da reação de apoiadores, Lula saiu em defesa da aliança construída no Rio de Janeiro e passou a cobrar unidade para ampliar a bancada governista no Senado.
O episódio ocorreu durante encontro com artistas na quarta-feira (23), no Rio. Pedro Paulo foi citado pelo prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) como um dos candidatos apoiados pelo grupo de Lula e recebeu vaias de parte do público, que respondeu com manifestações favoráveis à vereadora Mônica Benício (PSOL), também candidata ao Senado.
Lula reagiu defendendo os acordos políticos firmados por sua campanha e demonstrou preocupação com a possibilidade de candidatos do mesmo campo político dividirem votos, informa o Jornal de Brasília.
Para o presidente, uma eventual vitória acompanhada de uma bancada minoritária no Senado poderia criar dificuldades para um novo mandato.
“Não temos mais idade para brincar. O que está em jogo é muito sério. Se não fizermos maioria no Senado, a gente corre o risco desse país entrar numa crise sem precedentes”, afirmou Lula.
A discussão voltou à agenda na quinta-feira (24), quando Lula esteve ao lado de Pedro Paulo em São Gonçalo.
O presidente argumentou que a composição do Senado terá peso direto na relação de um eventual próximo governo com o Congresso.
Disputa entre aliados
No Rio, a coligação de Lula apoia Benedita da Silva (PT) para uma das duas vagas em disputa. A divergência está na segunda cadeira: enquanto a aliança formal tem Pedro Paulo, Mônica Benício mantém candidatura pelo PSOL e reúne apoio de setores da esquerda.
A disputa ocorre em um cenário apertado. Pesquisa Datafolha divulgada nesta quinta-feira (24) apontou Benedita com 19% das intenções de voto. Carlos Jordy (PL) e Carlos Portinho (PL) aparecem com 12% cada, Pedro Paulo tem 9%, Marcelo Crivella (Republicanos), 7%, e Mônica Benício, 6%.
Mônica reagiu às críticas sobre candidaturas independentes e defendeu a permanência na disputa. À Folha de S.Paulo, afirmou que sua candidatura mobilizou as bases e conquistou apoio inclusive entre integrantes do PT. A vereadora também criticou Pedro Paulo pelo voto favorável ao impeachment da então presidente Dilma Rousseff, em 2016. O deputado afirma estar arrependido daquele posicionamento.
Já Pedro Paulo, durante a agenda com Lula em São Gonçalo, prometeu lealdade ao presidente caso seja eleito para o Senado.
Lula lembra derrota de 2022
Para justificar o apelo pela concentração dos votos, Lula relembrou a eleição de 2022 para o Senado no Rio Grande do Norte. Naquele pleito, dois candidatos ligados à sua base disputaram separadamente: Carlos Eduardo Alves (PDT) recebeu 33,4% dos votos e Rafael Motta (PSB), 22,8%. Rogério Marinho (PL) venceu com 41,8% e posteriormente tornou-se líder da oposição no Senado.
O presidente usou o episódio para argumentar que a fragmentação entre aliados pode favorecer candidatos de oposição. A preocupação não está restrita ao Rio de Janeiro. Segundo a reportagem, disputas semelhantes ocorrem em estados do Nordeste, onde diferentes candidaturas ligadas ao campo governista concorrem pelas vagas ao Senado.
Em Pernambuco, por exemplo, Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT) estão entre os candidatos ligados à base de Lula, enquanto outros nomes desse campo político também permanecem na disputa. Na Bahia, há ainda candidatura do PSOL concorrendo em um cenário no qual o PT apresenta Rui Costa e Jaques Wagner.
A preocupação manifestada por Lula está ligada à renovação de dois terços do Senado nestas eleições. Para o presidente, a composição da Casa será decisiva para a relação entre Executivo e Congresso em um eventual quarto mandato.
