A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acendeu um sinal de alerta no mercado financeiro brasileiro. Com as contas públicas pressionadas por déficits bilionários e o crescimento da dívida, economistas elevaram significativamente as expectativas de inflação para os próximos dois anos, diante das incertezas sobre a capacidade do governo de equilibrar receitas e despesas.
Levantamento realizado pela corretora BGC Liquidez com cerca de 30 participantes do mercado financeiro aponta que a projeção de inflação para 2027 saltou de 4,34% para 5,3%.
Para 2028, a estimativa passou de 3,75% para 4,3%, afastando-se da meta de 3% estabelecida pelo BC (Banco Central). A comparação utiliza o último boletim Focus divulgado antes do segundo turno.
A deterioração das expectativas ocorre em um cenário de preocupação com a política fiscal do governo Lula. Entre os principais problemas apontados por analistas estão a ausência de medidas consideradas suficientes para conter o avanço das despesas, o crescimento do endividamento público e as dificuldades para recuperar a confiança dos investidores.
Os números das contas públicas ajudam a dimensionar o problema. Segundo dados divulgados pelo BC na quinta-feira (29), a dívida bruta brasileira alcançou R$ 11,1 trilhões em setembro, equivalente a 82,9% do PIB (Produto Interno Bruto), o maior patamar desde 2021.
O setor público acumulou déficit primário de R$ 70,1 bilhões em 12 meses, enquanto o déficit nominal, que inclui os juros da dívida, chegou a R$ 1,275 trilhão.
A situação também preocupa diante das promessas feitas durante a campanha eleitoral. Estimativas da IFI (Instituição Fiscal Independente), vinculada ao Senado Federal, apontam que propostas anunciadas por Lula, como o reajuste do Bolsa Família, medidas envolvendo as apostas esportivas e benefícios aos microempreendedores individuais, podem acrescentar R$ 40 bilhões ao desequilíbrio fiscal em 2027.
Dólar em alta e risco de preços mais elevados
A reação do mercado após o segundo turno também atingiu o câmbio. O dólar, que havia encerrado a semana anterior à eleição em R$ 4,99, chegou a R$ 5,44 no fechamento desta sexta-feira (30).
A valorização da moeda americana aumenta a preocupação com os preços de produtos importados, combustíveis e outros itens que dependem do mercado internacional. Esse movimento pode pressionar o custo de vida dos brasileiros, especialmente em setores como transporte e alimentação.
Segundo o economista Carlos Thadeu, da BGC Liquidez, a piora das projeções está associada à falta de uma âncora fiscal considerada confiável e à expectativa de aumento dos gastos públicos no próximo mandato de Lula.
O levantamento também mostrou que 11% dos participantes já projetam inflação superior a 6% em 2027, percentual acima do teto de tolerância da meta estabelecida pelo BC.
Governo enfrenta desafio de conter gastos
Apesar de ter registrado superávit de R$ 4,8 bilhões em setembro, o Governo Central acumula déficit primário de R$ 90,2 bilhões entre janeiro e setembro de 2026. O resultado é inferior ao déficit de R$ 100,3 bilhões registrado no mesmo período de 2025, mas mantém as contas federais no vermelho.
Para economistas que defendem maior rigor fiscal, a dificuldade do governo em apresentar um plano consistente de contenção das despesas representa um dos principais riscos para a economia brasileira nos próximos anos.
Por outro lado, especialistas contrários a cortes bruscos alertam que um ajuste fiscal excessivamente rápido pode comprometer investimentos, programas sociais e o crescimento econômico.
Outro reflexo das incertezas é a perspectiva de manutenção dos juros elevados. A Selic está em 13,75% ao ano, e o mercado passou a considerar menor espaço para novos cortes diante da piora das expectativas inflacionárias.
Com a inflação projetada em alta, a dívida pública em patamar elevado e o orçamento pressionado, Lula inicia a preparação para o novo mandato diante de um desafio econômico: recuperar a confiança do mercado sem comprometer o crescimento e as políticas sociais. O comportamento dos preços, do dólar e das contas públicas nos próximos meses será decisivo para avaliar a capacidade do governo de enfrentar esse cenário. (Com informações do Jornal de Brasília, Carta Capital e Folha)
