A decisão de Flávio Bolsonaro (PL) de apoiar o fim da escala de trabalho 6x1 alterou a disputa política em torno de uma das principais bandeiras da campanha de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Ao anunciar voto favorável à redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte salarial, o candidato da oposição neutraliza parte do discurso utilizado pelo presidente para associá-lo à retirada de direitos trabalhistas.
A mudança ocorreu após a intervenção do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), governador eleito de Minas Gerais, que defende a redução da jornada há aproximadamente três anos.
O parlamentar afirmou ter conversado com Flávio e obtido o compromisso de apoio à proposta em discussão no Senado.
O movimento representa uma mudança na estratégia eleitoral do PL. Até então, Flávio criticava a votação da medida às vésperas do segundo turno, classificando a iniciativa como uma tentativa de favorecer Lula eleitoralmente. Agora, a oposição passa a disputar o protagonismo da proposta, em vez de concentrar sua atuação na resistência ao texto.
A adesão também enfraquece a tentativa de apresentar o candidato bolsonarista como contrário à ampliação do descanso semanal. A campanha petista chegou a utilizar anúncios com essa associação, mas teve peças publicitárias suspensas por decisão do TSE (Tribunal Superior Eleitoral).
Cleitinho ganha protagonismo na articulação
A participação de Cleitinho foi decisiva para aproximar Flávio da proposta. O governador eleito argumentou que parlamentares não deveriam se opor à ampliação do descanso dos trabalhadores, especialmente diante dos recessos e benefícios existentes no próprio Congresso.
Ao mesmo tempo, defendeu medidas de compensação tributária para empresas que possam enfrentar dificuldades com a redução da jornada.
A proposta prevê a substituição do modelo de seis dias de trabalho por um de descanso por uma jornada de cinco dias trabalhados e dois de folga, mantendo a remuneração. O texto ainda precisa cumprir as etapas de votação no Senado.
Embora tenha assumido compromisso de apoiar o fim da escala 6x1, Flávio também defende uma alternativa baseada em maior flexibilidade contratual, com possibilidade de negociação da carga horária entre empregados e empregadores. Esse ponto mantém diferenças importantes entre a posição do candidato e a proposta apoiada pelo governo.
Mudança pode reduzir vantagem política de Lula
A redução da jornada tornou-se uma das apostas do presidente para ampliar sua aproximação com o eleitorado trabalhador na reta final da eleição. Com o apoio anunciado por Flávio, a campanha governista perde parte da possibilidade de explorar uma oposição direta entre os candidatos nesse tema.
Isso não significa, porém, que Lula deixe de obter ganhos políticos com uma eventual aprovação. O presidente continua associado à defesa da medida, enquanto a mudança de posicionamento do adversário também pode ser interpretada como resultado da pressão eleitoral.
O alcance da proposta é outro ponto do debate. O Brasil possui cerca de 39,5 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado, mas nem todos cumprem a escala 6x1. Além disso, milhões de profissionais informais e microempreendedores individuais não seriam automaticamente contemplados pelas novas regras da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
Há ainda a discussão econômica. A redução de 44 para 40 horas semanais, com manutenção do salário, representa aumento de 10% no custo salarial por hora trabalhada. O impacto tende a ser mais difícil de absorver por pequenos negócios, motivo pelo qual parlamentares discutem possíveis compensações.
Disputa também alcança o comando do Senado
A movimentação política pode ter reflexos além da eleição presidencial. Aliados de Flávio Bolsonaro sinalizam a possibilidade de lançar Rogério Marinho (PL) à presidência do Senado caso a oposição vença a disputa pelo Palácio do Planalto.
A articulação colocaria em questão os planos de Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) de permanecer no comando da Casa, acrescentando outro elemento à disputa entre governo e oposição.
Com a votação da proposta prevista para esta quarta-feira (14), o fim da escala 6x1 passa a reunir apoio de setores dos dois campos políticos, embora persistam divergências sobre o formato da mudança.
Para Flávio, a adesão reduz o risco de desgaste junto aos trabalhadores e amplia seu espaço de disputa no segundo turno. Para Lula, a aprovação ainda pode representar uma vitória política. O resultado eleitoral dessa movimentação, contudo, permanece incerto, já que o apoio a uma mesma proposta não significa necessariamente a transferência de votos entre os candidatos. (Com informações do Jornal de Brasília)
