O Irã anunciou neste domingo (8) que definiu um sucessor para o líder supremo Ali Khamenei, morto em um bombardeio de Estados Unidos e Israel no fim de fevereiro, no início da ofensiva contra o país.
Segundo a agência de notícias Mehr, o sucessor foi escolhido pela Assembleia de Peritos — órgão responsável por eleger o líder supremo da República Islâmica.
A informação foi confirmada pelo membro do conselho Ahmad Alamolhoda. O nome do escolhido, porém, ainda não foi divulgado. “O líder supremo já foi escolhido”, afirmou.
Alamolhoda acrescentou que o anúncio oficial agora depende do chefe do secretariado da Assembleia de Peritos, Hosseini Bushehri, responsável por tornar pública a decisão, segundo a agência de notícias semioficial iraniana Mehr.
Militares israelenses afirmaram que irão “perseguir todos os sucessores e qualquer pessoa envolvida na escolha de um novo líder”.
A Assembleia de Peritos é composta por 88 aiatolás, que têm a atribuição de selecionar o líder máximo do país desde a Revolução Islâmica de 1979.
Nos últimos dias, o conflito também atingiu diretamente a estrutura política do regime. Na terça-feira (3), o Exército israelense atacou um prédio ligado à Assembleia de Peritos na cidade de Qom, no sul do Irã, segundo a imprensa israelense e a agência estatal iraniana. No momento da ofensiva, o local sediava uma reunião de aiatolás.
Ali Khamenei morreu no dia 28 de fevereiro, após um bombardeio conduzido por Estados Unidos e Israel contra alvos estratégicos em Teerã.
O ataque matou também comandantes militares e integrantes de alto escalão do regime iraniano e desencadeou uma escalada militar no Oriente Médio, com trocas de ataques entre Irã, Israel e forças americanas na região.
Guerra chega ao 9° dia
Na madrugada deste domingo (8), Israel atacou depósitos de combustível em Teerã, capital do Irã, provocando um grande incêndio e deixando quatro mortos.
Segundo a AFP, quatro depósitos de petróleo e um centro logístico foram atingidos. Os ataques danificaram a rede de abastecimento e levaram à interrupção temporária da distribuição de combustível na cidade. Imagens do incêndio foram confirmadas pela Reuters.
O impacto da guerra já se espalha para outros países: Bangladesh começou a racionar combustível por dificuldades de abastecimento ligadas ao conflito no Oriente Médio.
Quem era Khamenei
Ali Khamenei nasceu em 1939 em Mashhad, cidade sagrada para os xiitas. O segundo de oito filhos, de uma família pobre e devota. Cresceu sob a monarquia do xá Reza Pahlavi — num momento em que o Irã era aliado dos Estados Unidos e até de Israel.
O líder supremo nunca aceitou fazer reformas na república islâmica e reprimiu com força a oposição. No cenário internacional, Khamenei mantinha a hostilidade aos Estados Unidos e se negava a aceitar a existência do Estado de Israel.
Quando o Irã começou a se rebelar contra a monarquia, ele se juntou aos protestos. Acabou na prisão e, em 1977, foi para o exílio, que não durou muito. A revolução islâmica do aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1979, derrubou o xá e marcou uma mudança radical na política externa do país.
O Irã, de origem persa, buscava conter o predomínio árabe no Oriente Médio. Mas aquele país que respirava cultura americana e europeia também reprimia quem discordasse do governo.
Não demorou para que uma ideologia antiocidental crescesse na sociedade e dentro de Khamenei.
O Irã passou a pregar a eliminação do Estado de Israel. E a chamar os Estados Unidos, um antigo aliado, de “grande satã”, símbolo do imperialismo ocidental. A ascensão dos clérigos xiitas foi a porta de entrada de Ali Khamenei ao poder. Virou homem da confiança do líder supremo.
Em 1980, passou a conduzir a oração de sexta-feira em Teerã, a mando de Khomeini. Em 1981, um ataque a bomba deixou a sua mão direita paralisada. Logo depois, aos 42 anos, foi eleito presidente do Irã com 95% dos votos.
Durante a guerra contra o Iraque, entre 1980 e 1988, esteve ao lado de Khomeini.
Foi nesse período também que o Irã começou a financiar e a armar extremistas como o Hezbollah, no Líbano. E, mais tarde, os terroristas do Hamas, na Faixa de Gaza. Era a chamada guerra por procuração — que, ao longo das décadas seguintes, provocou diferentes atentados contra cidadãos israelenses e ocidentais.
Desde a morte de Khomeini, em 1989, Ali Khamenei liderou o país de 90 milhões de habitantes e uma história que se funde com a antiga Pérsia. Quando se tornou líder supremo, sua escolha foi considerada uma surpresa porque nem todos o julgavam qualificado para suceder Ruhollah Khomeini, o fundador da república islâmica.
Seu poder foi proporcional ao dos grandes ditadores. O Irã é uma teocracia. Por isso, Khamenei acumulou as funções de líder político e líder religioso. Foi o responsável pelas decisões estratégicas da nação, como as de política externa, segurança e forças armadas.
Podia anular as decisões do presidente e tinha o poder de demitir qualquer membro do governo a qualquer momento, sem os votos do parlamento. Apresentava-se como o guardião dos valores da revolução islâmica: justiça social, independência nacional e governo islâmico.
Mas, diante do seu povo, Khamenei usou a força para reprimir a dissidência. Como a Onda Verde de 2009, que protestou contra a reeleição do presidente conservador Ahmadinejad. Ou em 2019, quando as periferias se revoltaram contra o aumento dos preços dos combustíveis.
Em 2022, uma nova onda de protestos foi reprimida depois da morte da jovem Mahsa Amini, sob custódia da polícia moral iraniana. Ela tinha sido presa por não usar o véu islâmico corretamente e, segundo a família, foi espancada pelos agentes.
O gesto de retirar o hijab e cortar o cabelo em público se tornou um símbolo das manifestações. O governo reagiu com a receita das ditaduras: violência, prisões arbitrárias, mortes, perseguição a jornalistas e censura da internet.
Nos últimos anos, Khamenei viu a popularidade do regime cair, por causa da insatisfação com a economia cambaleante. A inflação disparou, o desemprego está em alta e a exportação de petróleo já não é mais a mesma. Muito por causa das sanções impostas pelo Ocidente, em represália ao programa nuclear iraniano.
A insatisfação popular aumentou após os ataques de Israel e dos EUA ao Irã, em junho de 2025, que agravaram a crise econômica no país. No início deste ano, o governo enfrentou uma grande onda de protestos, reprimida com violência por Teerã e que deixou milhares de mortos.
Antes do ataque do sábado, o líder iraniano sobreviveu a um atentado em 1981, e também se recuperou de um câncer em 2014. Desde a morte de Hassan Nasrallah, que comandava o Hezbollah, o Irã aumentou as medidas de segurança para o aiatolá.
Em um país em que os veículos de imprensa são controlados pelo regime, não são muitas as informações sobre a rotina do líder supremo. Diziam que ele viveu os últimos meses num bunker subterrâneo em Teerã. (Com g1)
